Qual o impacto da formação social subdesenvolvida e dependente como a nossa? É preciso constatar que somos uma sociedade dependente, mas que o nosso sistema educacional constitui, no essencial, uma adaptação desajeitada dos sistemas que se criaram nas economias desenvolvidas, e em particular nos Estados Unidos, O nosso sistema constitui, antes de tudo, um compromisso, entre um mundo que a nossa classe dirigente tenta imitar, e as duras realidades da nação. Estas realidades precisam ser lembradas.

A situação que enfrentamos, apresenta-se simplesmente como de marginalização educacional do grosso da população. Esta marginalização decorre evidentemente de problemas estruturais mais amplos. No relatório do Banco Mundial de 1999, o Brasil aparece como único país onde os 10% mais ricos das famílias consomem mais da metade do produto social. (The World Bank — Brasil. Washington, 1999). Como se surpreender então que boa parte da população infantil seja atraída para a escola através da merenda? Segundo o Banco Mundial, baseando-se em dados não publicados do IBGE, em 2004 apenas 32,8% da população comiam o suficiente, relativamente às normas calóricas mínimas estabelecidas pela FAO e pela OMS. Temos assim 67%, exatamente dois terços, de subnutridos. Pode-se estimar que um quinto das nossas crianças encontra-se num estado grave de subnutrição, com deficiências de mais de 400 calorias. (The World Bank — Brasil). A Pobreza do grosso das famílias brasileiras reflete-se, por sua vez, no tipo de relação educação-trabalho. SILVA, T. T.(1994) , dá a educação um sentido mais questionador quando refere-se que “o uso e abuso de duas estratégias discursivas tem permitido a estes setores avançar e estender consideravelmente a modernização conservadora na esfera educacional: (a) o discurso da qualidade e o conteúdo específico atribuído à ela quando a remetemos à análise das políticas educativas e dos processos pedagógicos, (b) o exacerbado discurso dominante de articulação do universo educacional e o do universo do trabalho que, defendido no plano teórico pelos que postulam uma neo-teoria do capital humano, se tem expandido como a única nuance a partir da qual se pode (e deve) avaliar os efeitos “práticos” da educação no mundo contemporâneo.” A educação é obrigada a mover-se neste mundo real. Complemento ideológico de uma dominação de classe das mais violentas hoje existentes, esta educação explica porque não há racismo no país, e contribui para a reprodução do sistema de opressão das minorias. O nosso sistema educacional é adaptado dos países capitalistas desenvolvidos. Por trás desta adaptação, há uma teoria implícita: quanto mais avançado o sistema imitado, maior o progresso para quem imita. O erro, evidentemente, consiste em não ver que o avanço do sistema educacional dos países desenvolvidos não resulta meramente da construção de belas cidades universitárias e da tranqüilidade das bibliotecas de pós-graduação. Estas é que resultam de um lento amadurecimento social e econômico, e de profundas transformações estruturais na própria base das formações sociais. (a) Qual o sentido da educação formal ministrada a crianças com fome, a crianças e jovens esgotados de trabalho? (b) Como fica a idéia de chances iguais através da educação, quando a maioria da população está esmagada num processo estrutural de elitização? (c) A que ponto podemos ter o mesmo sistema educacional para as minorias que vivem no nível dos habitantes de países ricos, e para a ampla maioria da população, que se debate com os problemas mais elementares de sobrevivência? Ao lermos as críticas de CARNOY, M. (1990) ao sistema francês ou norte-americano, temos a curiosa sensação de nos vermos num espelho de feira: os componentes estão todos aí, temos primário e secundário, pós-graduações e doutores, mas o resultado final é profundamente diferente. Enquanto nos países capitalistas desenvolvidos a função de dominação ideológica está associada a uma indiscutível elevação do nível científico e cultural da maioria da população, aqui, aparentemente, ficamos com ampla prioridade à simples dominação. A realidade é que a nossa educação primária é a única que não é fortemente elitista na sua freqüência não fornece nem suficiente educação formal para assegurar a ascensão das massas populares, nem conhecimentos técnicos especializados capazes de melhorar o seu desempenho profissional no nível em que se encontram. O caráter trágico das contradições do nosso sistema de educação está bem expresso neste “não quero esta vida para o meu filho”. Como fica a nossa função de educadores, quando somos chamados a fornecer a minorias oportunidades de “escapar” à sua situação, em vez de fornecer ao conjunto da sociedade os instrumentos da sua autotransformação? A verdade é que a função propriamente de criação e de divulgação científica da universidade limita-se a alguns centros amplamente financiados pelos poderes públicos, de alto nível, que asseguram ensino gratuito aos filhos de camadas abastadas, e formam as minorias tecnicamente competentes de que o sistema precisa. (POPKEWITZ, 1997) Nestas condições, o processo de rápida modernização através de concentração de tecnologia em setores de ponta, aliado à centralização dos circuitos administrativos, tem a educação de que necessita: poucos e bem formados. Não podemos esquecer que com o progresso tecnológico o acesso ao conhecimento torna-se mais do que nunca instrumento de dominação social. Formam-se assim minorias de “técnicos” poderosos, enquanto a generalidade do sistema educacional exerce as suas funções de dominação mais através da exclusão e da marginalização do que através do próprio conteúdo educacional. (FRIGOTTO, 1993) Como romper esta lógica? Como promover um sistema educacional que promova o desenvolvimento do conjunto da sociedade, em vez de reproduzir para elites segmentos de país desenvolvido? Como abrir espaço para alternativas, no próprio sistema educacional, tal como existe?

São problemas-chave que se colocam para todos nós, e com caráter de urgência, frente à desintegração social que se aprofunda.

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Continua…