A EDUCAÇÃO GLOBALIZADA

Os padrões definidos pelos rumos da globalização são localmente re-significados, apesar de não perderem as marcas advindas das decisões em escala mundial.

Neste sentido, é preciso considerar que a estruturação e implementação das políticas educativas constituem uma arquitetura em que se fazem presentes, dentre outras dimensões:

  • as soluções técnico-políticas escolhidas para operacionalizar internamente os princípios ditados pelo espaço global
  • o conjunto de valores que articulam as relações sociais;
  • o nível de prioridade que se reserva à própria educação;
  • as práticas de acomodação ou de resistência forjadas nas instituições que as colocam em ação, sejam nos sistemas de ensino ou nas próprias escolas.

Na medida em que as orientações globalizadas direcionam-se para contextos sócio-culturais que não são homogêneos, resultam em processos que buscam articular a lógica do global, do regional e do nacional, e, no interior das sociedades, as lógicas que regem as instituições e, em particular, os espaços locais.

Trata-se de uma complexa alquimia que produz um mesmo fenômeno que, entretanto, vai ser revestido das singularidades próprias de cada contexto (MELLO, 1993).

A sua apreensão requer, pois, o acionamento de ferramentas que contemplem uma análise relacional sobre o modo como se articulam esses diversos níveis. Acreditamos ser esta uma das possíveis maneiras de se buscar o entendimento das especificidades e das contradições que resultam dos imperativos globais.

Esses níveis analíticos, por seu turno, implicam a busca da clareza quanto aos mecanismos que engendram o próprio processo da globalização, naquilo que articula ou dissolve o local e o global.

Desta perspectiva, SANTOS (2001) ilumina a questão, quando considera a inexistência de uma entidade única que possa ser estritamente denominada “globalização”.Privilegiando uma definição que destaca as dimensões sócio-políticas e culturais do conceito, ele procura demonstrar que são diferentes conjuntos de relações sociais que originam diferentes fenômenos de globalização ou globalizações.

Como resultam de conflitos que implicam em vencidos e vencedores, estes últimos assumem o discurso sobre a globalização, que é a narração da sua própria história, na qual pouco têm lugar os derrotados.

Deste modo, SANTOS define a globalização como o processo através do qual “determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo” e quando o faz, “desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival” (2001, pp. 3-4). Além disto, sublinha as implicações analíticas da sua definição, afirmando que:Em primeiro lugar, perante as condições do sistema-mundo ocidental não existe globalização genuína; aquilo a que chamamos globalização é sempre a globalização bem sucedida de determinado localismo. Por outras palavras, não existe condição global para a qual não consigamos encontrar uma raiz local, uma imersão cultural específica. […]

A segunda implicação é que a globalização pressupõe a localização. De fato, vivemos tanto num mundo de localização como num mundo de globalização. Portanto, em termos analíticos, seria igualmente correto se a presente situação e os nossos tópicos de investigação se definissem em termos de localização, em vez de globalização. O motivo por que é preferido o último termo é, basicamente, o fato de o discurso científico hegemônico tender a privilegiar a história do mundo na versão dos vencedores(SANTOS, 2001, p. 4).

É importante lembrarmos que o desenvolvimento dos sistemas de ensino começou a ser impulsionado quando da formação do Estado Moderno, a partir da crença no papel da educação para a homogeneização cultural das nações. Desde então, contribuíram, para a dinamização deste impulso e para a extensão da escolaridade universal, as necessidades de preparação e do disciplinamento da força de trabalho, a idéia da libertação do homem pela cultura e do poder da educação na diminuição das desigualdades sociais e na promoção do progresso sócio-econômico (SACRISTÁN, 1999).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FRIGOTTO, G. Trabalho e educação face a crise do capitalismo: ajuste neoconservador e alternativa democrática. Niterói, Universidade Federal Fluminense, 1993.

MELLO, G.N. Cidadania e Competitividade. Desafios educacionais do terceiro milênio. São Paulo, Cortez, 1993.

SILVA, T.T.da. A nova direita e as transformações da pedagogia da política e da política da pedagogia. In: GENTILI, E & SILVA, T.T.da (orgs). Neoliberalismo,Qualidade Total e Educação: visões críticas. Rio de Janeiro, Vozes, 1994.

OUTRAS OBRAS CONSULTADAS

AFONSO, A. J. Avaliação educacional: regulação e emancipação. São Paulo: Cortez Editora, 2000.

AZEVEDO, J. M. L de. & AGUIAR, M. A. da S. “Características e Tendências dos Estudos sobre a Política Educacional no Brasil”. II Congresso Luso Brasileiro de Política e Administração da Educação. Braga: Universidade do Minho, 2001. (texto inédito a ser publicado nas Actas do Congresso) .

AZEVEDO, J. M. L de. & AGUIAR, M. A. da S. “Políticas de Educação: concepções e programas”, In: L. WITTMANN & R. GRACINDO (orgs.) O Estado da Arte em Política e Gestão da Educação no Brasil. Brasília: ANPAE/INEP, 1999.

AZEVEDO, J. M. L. A educação como política pública. Campinas: Autores Associados, 1997.
BALL, S. J. “Cidadania global, consumo e política educacional”, in: L. H. SILVA (org.) A escola cidadã no contexto da globalização. Petropólis: Ed. Vozes, 1998.

OLIVEIRA, F. “O surgimento do antivalor.” Novos Estudos n. 22, São Paulo: CEBRAP, 1988.

POPKEWITZ, T. S. Reforma educacional: uma política sociológica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

SACRISTÁN, J. G. Poderes instáveis em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

SANTOS, B. de S. A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez Editora, 2000.

SANTOS, B. de S. “A reinvenção solidária e participativa do Estado”. Seminário Internacional sobre Sociedade e a Reforma do Estado. MARE: São Paulo, 1998. (www.mare.gov.br – página consultada em 28/10/05).

SANTOS, B. de S. “As tensões da modernidade”. Fórum Social Mundial: Biblioteca das Alternativas, 2001. ( http://www.forumsocialmundial.org.br/portugues/biblioteca – página consultada em 17/10/05)